Maria Cultura


Liberdade: é por ti a nossa luta

1jul

publicado por Maria Cultura

por Sara Cadore

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Imagine se povos extraterrestres decidissem invadir seu apartamento e morar lá. Você, simplesmente um humano, passa a ser tratado como um qualquer em seu próprio território, acuado. Já não pode mais andar pelado pela casa e tem que renovar todos os hábitos, repensar as atitudes. Começa a agir conforme a lei do invasor, viver sob domínio de estranhos, entrega-se, como se fosse domesticado. Alguns anos depois, os ETs brigam entre si e resolvem te dar uma ordem de despejo. Cansado, mas pronto para a resistência, você não vê alternativa, senão a guerra.
Não me ocorreu uma metáfora melhor para resumir a trajetória dos povos guaraníticos da região das missões gaúchas, que por volta do século 17 estiveram submissos a espanhóis e portugueses. Liderados pela figura mítica de Sepé Tiaraju, os Guaranis enfrentaram seus conquistadores com a coragem e a convicção dos bravos, defendendo seu solo como se fosse sua honra. “Esta terra tem dono!”, repetiam os legítimos heróis, que lutaram pela liberdade e deram origem ao espírito lutador de cada gaúcho. Essa história pode ser sentida em todos os olhares lançados sobre as ruínas e sítios arqueológicos dos povos missioneiros.

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Durante quase um século, os padres jesuítas mantiveram cerca de 40 mil guaranis organizados em comunidades hierárquicas com agricultura, artesanato e arquitetura desenvolvidas. Lá, os jesuítas incentivavam talentos musicais, ensinavam latim e outras habilidades aos índios. A chamada utopia de batina não durou muito. Com o Tratado de Madri, em 1750, Portugal e Espanha redefiniram as fronteiras de seus domínios na América. Os Povos das Missões se transformaram em território luso e os guaranis deveriam migrar para a Argentina e Paraguai, do outro lado do rio Uruguai.
Como se acordassem de um longo transe, os índios não aceitaram perder suas terras e reagiram com movimentos planejados e a estratégia de quem conhecia cada palmo daqueles campos.  A peleia foi braba, mas a união das coroas espanhola e lusitana extinguiu os nativos na Guerra Guaranítica. Até hoje podem se ver as feridas abertas na região. E também o olhar guerreiro de quem sabe o valor da sua terra e da raça de seus ancestrais.

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Para quem sai de Porto Alegre, são cinco horas de estrada até a pequena aldeia de São Miguel das Missões. Lá chegamos à Pousada das Missões, um hostel localizado a 150 metros das ruínas da imponente catedral dos ventos. As instalações são tão boas quanto o preço e o atendimento do lugar. Do café da manhã ao bistrô, eram nas orgias gastronômicas que podia-se encontrar o seleto público de visitantes: mochileiros do mundo, estudantes, jovens casais e famílias inteiras procurando sossego, bucolismo e história.

Para provar as delícias da culinária campeira e um ambiente mais do que peculiar, a opção foi o único restaurante aberto para o almoço no feriado: Kaiper Ely. Comida missioneira, de fogão a lenha e sem frescura: feijão mexido, arroz, batata doce e carne de porco na panela (a gordura é figurativa, vá com fé). A família do seu Luiz te recebe com toda a hospitalidade de quem não vê muitos visitantes durante a semana. Apesar de tantas belezas, ainda falta jeito com o turismo na região. Não se assuste quando o proprietário mostrar as fotos da festa junina de 20 anos atrás, ou apresentar o filho Zeno Alcides. Eles são inofensivos e amores de pessoas.

A caminhada digestiva é no próprio sítio arqueológico de São Miguel. O passeio sai pela bagatela de R$5 (a meia-entrada para estudantes e melhor-idade funciona). Reserve algumas horas para desbravar cada ângulo da enormidade do lugar. O conselho é contemplar. Com sorte você pega um dia de sol, assim como o que passamos lá.  A noite estava igualmente limpa e povoada de estrelas. Ela é o cenário do Espetáculo de Som e Luz, que emociona ao contar a história das reduções jesuíticas desde o seu nascimento, desenvolvimento até a crise e a decadência dos guaranis. As vozes de Fernanda Montenegro, Paulo Gracindo e Lima Duarte, entre outros, engrandecem o show. Entender a história contada pelos seus heróis e pela própria igreja é uma experiência incrível.
Perto dali estão os sítios arqueológicos de São João Batista, São Lourenço e o Santuário do Caaró. Os dois primeiros são essenciais, com seus cemitérios centenários em meio a paisagens esquecidas pelo tempo. Em Caaró, a homenagem aos mártires da região, que não foram poucos. Vale também a visita à Santo Ângelo, cidade simpática que replicou a catedral jesuítica de São Miguel de maneira muito fiel e respeitosa.
A leitura obrigatória que antecede esse passeio/aula de história é da obra de outro ícone das Missões: Érico Veríssimo. Ninguém contou essa saga melhor que ele em sua antológica trilogia “O Tempo e o Vento”. Um registro das nossas origens para a eternidade.
Do alto dos campos de São João Batista e São Lourenço, entre vestígios, verde, ares de guerras e heroísmo, é fácil lembrar o grande escritor. Logo o imaginário recria a imagem clássica de sua heroína Ana Terra, dizendo em tempos de espera: “Noite de vento. Noite dos mortos.” Uma ode aos que lutaram e morreram por seu chão.

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1 comentário em “Liberdade: é por ti a nossa luta”

  1. mitzcun diz:

    Muito bom!!!

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